Yellow Bus.

📌 Localização: Jardim Engenheiro Luís da Fonseca, Setúbal.
  Estão recordados desta rubrica que inaugurei há cerca de duas semanas atrás?! Tenciono dar-lhe mais uso daqui em adiante. Afinal, as calorias que gasto no ginásio ou estágio têm que ser recompensadas com prazeres de gula, não vá eu desaparecer nas minhas calças! Não me recordo de estar tão magra, o que nem sempre é equivalente a ser-se mais saudável ou feliz... Neste caso (o meu), acredito que tudo esteja em harmonia!... Continuo a gostar de comer, apesar de ser mais selectiva e racional na hora de escolher o que irá ser fundamental para o meu corpo e estilo de vida. Valorizo cada vez mais as aventuras gastronómicas fora de casa, porque constituem inspirações para novas receitas, as quais também desejo partilhar com vocês.
No entanto, hoje fico-me pela descoberta de um cantinho de lazer por Setúbal: o Bar Yellow Bus. Ideal para terminar o dia com amigos!

IMG_2236

Pelo centro de Setúbal.

Moro permanentemente no distrito de Setúbal há cerca de três anos, mas sempre considerei esta a minha casa. Se me perguntarem de onde sou, respondo sem pensar: "Sou de Setúbal!". Cresci aqui. Foram as ruas por onde corro agora que aprendi a andar de bicicleta, que me perdi com o meu pai nas caminhadas pela serra, que me esfolei nas brincadeiras com os meus primos. Era a minha casa dos fins-de-semana, por onde passeava em família. Foi nesta casa, que os meus pais construíram de raiz, que me tornei mulher e comemorei cada aniversário. Foi também na Serra da Arrábida que fiz as maiores promessas e tomei grandes decisões. No fundo, apesar de ser lisboeta, conheço melhor Setúbal do que muitos dos seus residentes, e agradeço aos meus pais pela oportunidade de crescer num cantinho que me oferece de tudo. O melhor da cidade e do campo. Um equilíbrio perfeito, ao qual chamo de lar. Eles poderiam ter escolhido qualquer outro local, afinal nada nos agarrava aqui. Simplesmente se apaixonaram por Setúbal, pela Serra e por Azeitão. E eu confesso-vos que percebo o porquê. Sempre quis mudar-me para cá. Bati o pé com 15 anos. Queria fazer o liceu por aqui... Com muita pena minha, tal não aconteceu. Passei a frequentar o café da zona - o spot do meu verão de que vos falei, e invejo a comunidade de jovens que se encontram e se conhecem desde sempre. Na cidade onde cresci não existia essa proximidade, em que todos se encontram no sítio de sempre, com as mesmas caras conhecidas. E depois há um acréscimo: os setubalenses são, maioritariamente, despachados e muito simpáticos. Existem sim traços característicos, como o hábito de se falar com estranhos nas ruas, e eu gosto disso. De faladeira tenho muito. E se forem tão atentos quanto eu, apercebem-se por entre gente simples de alguns trejeitos: o carregar dos erres. Para isso terão que ir bem ao centro da cidade, como eu habitualmente faço. Desta vez, trouxe-vos comigo!

IMG_2146 IMG_2148

O meu primeiro turno.

 Recordo-me muito bem do dia em que vesti pela primeira vez a farda branca em contexto de estágio, numa casa de banho minúscula da unidade, há dois anos atrás. Estranhei-me ao me ver ao espelho. Nunca pensei que o meu caminho passasse por Enfermagem, confesso. Na altura hesitei. Pensei que talvez não fosse bem este o caminho ideal, e nunca porque duvidasse da vocação em si. Essa eu sentia-a há muito tempo, desde cedo, e omitia-a em prol dos diversos estereótipos que as vozes externas fazem ressoar. A profissão socialmente é ainda muito desvalorizada, a começar pelas médias de entrada. Acabei por não ir para Enfermagem com 18 anos exactamente por isso... Convenci-me, ou deixei convencer-me, de que era um desperdício para uma média de dezoito valores, e lá me meti numa engenharia só por mera vaidade intelectual. Na altura a que tinha a média mais alta no instituto superior técnico e isso enchia-me o ego, mas não os olhos de motivação. Até que me decidi a mudar tudo do avesso e guiar-me pelo que o meu coração ditava. Imaginem portanto o quanto que entrar numa unidade fardada pela primeira vez me induziu. Mal dormi na noite anterior por recear não gostar de me encontrar neste papel, e seguiu-se todo um confronto com a realidade de estar a começar do zero. A minha enfermeira orientadora era mais nova do que eu, e em parte também menos madura. Foi impecável para comigo, mas senti, como veio a repetir-se em estágios seguintes, que tinha que me conter para não expressar a minha sensibilidade na relação humana para além do expectável num estudante/estagiário, de modo a não entrar em confronto com as convenções de ninguém. Por vezes, o fazer ou ser-se de certa forma provoca no outro uma reflexão tal que caso não seja bem aceite o afasta no sentido da crítica e quando se tem um orientador que te dita a nota é melhor ser um pouco mais inteligente e deixar o meu jeito para depois. Senti-me, por isso, numa concha, padronizada como que em série. E logo eu que idealizava algo diferente e mágico. Idealístico.  
Imaginem, portanto, o vazio de me sentar numa secretária neste primeiro turno e a sensação de inutilidade e frustração, por pouco me ser ainda permitido fazer senão "coisas" e observar os enfermeiros a fazerem tarefas. Nesse exacto momento tirei esta fotografia com o meu fiel caderno de anotações sobre como se fazerem outras tantas coisas. Estava eu entristecida porque me parecia limitador.

  O que eu não sabia era que acabaria por fazer essas tantas "coisas" cantando Rui Veloso a alto e bom som. Poucos são os que me ouviram cantar, à excepção dele - o meu primeiro utente, que era uma criança de cinco anos, preso num corpo de 52 anos com distrofia muscular e paralisia cerebral. Cantar durante o banho ajudava-o a relaxar e aliviar as dores. Aquele momento do dia, incluído numa rotina de dia após dia, destinada a uma tarefa x, e intervalada com a ronda dos banhos, a da medicação, a dos pensos, a das refeições, passou a ser um momento de magia, em que nenhum problema meu importava mais. Eu estava ali. Deixava de ser em parte a Ju cá de fora e passava a ser a Ju enfermeira. Foi aí que percebi após o primeiro impacto e desilusão. Há "coisas e coisas", e formas de o fazer com o coração nas mãos, mas com muita sapiência nas intervenções. Ainda que me tenha que submeter a rondas em que se percorre uma unidade de uma ponta à outra, tal como a fábrica em série para se cumprir horário, é possível de não perder a essência que nos distingue dos demais. A minha parte de uma observação e sensibilidade para o sofrimento, vindo de quem o sentiu de perto. Aprendi a justificar este meu jeito de estar, descontraído, com diagnósticos de enfermagem. Há que saber justificar e argumentar, afinal o Humor a que tanto recorro está descrito na literatura, bem como um calor humano de um abraço, de uma lágrima partilhada com o outro, e não a distância incutida... Hoje em dia continuo a desiludir-me com alguns modelos de enfermagem seguidos. Agarro-me agora ao que me motiva a ser melhor, e filtro o que quero captar. E ainda há muito por onde me agarrar, felizmente! 
Deixo-vos com esta música, o hino da instituição que me acolheu no início desta jornada que agora está prestes a terminar. Ainda hoje vesti a farda no meu último primeiro dia de estágio e, por dentro, entoava "há gente rara, que és tu, e sou eu...".

Do meu amor por fachadas.

IMG_2240
Dos mil e um sonhos que tenho, um deles é o de viver numa casa com uma fachada tradicional. Colorida e com um varandim.

O balanço 5 meses depois.

Desde o primeiro dia em que me estreei neste blogue - há cerca de cinco meses - prometi que iria fazê-lo dentro dos meus critérios e com o que me faria sentir confortável e segura (por experiência com anteriores blogues). Nada mais para além disso. Sem grandes objectivos ou ambições de o tornar num cantinho virtual conhecido entre o mundo da blogosfera. Pensei que seria um compromisso para comigo mesma. Um projecto, assim diguemos, onde teria liberdade para expressar a minha arte. 
Eu sabia que pouco se lê e se o fazem é por entrelinhas na esperança que um comentário gere uma resposta ou um follow um re-follow, pois que agora bomba o youtube, o facilitismo e tudo o que é imediato. Na verdade, nunca pensei em divulgar o que escrevia em redes sociais (à excepção do twitter que para mim é uma reunião com outros leitores e donos de blogues portugueses maravilhosos), até que se tornou inevitável alguns amigos perguntarem-me "Ju, com tanta fotografia maravilhosa no teu instagram nunca pensaste em escrever um blogue?". E a resposta era natural e orgânica. Sim, já o tenho. Eu sabia que tinha em mim uma necessidade gritante por partilhar as minhas fotografias e viagens, mas também sabia que ser-me-ia difícil omitir partes da minha vida que não são assim tão cor-de-rosa...
Inicialmente, recordo-me de ter criado uma curta lista que teria que cumprir à risca na elaboração do conceito de Ju Vibes:
  1. Todas as imagens seriam de minha autoria, o que tenho cumprido até então (e não pretendo mudar!); 
  2. Não escreveria sobre a minha vida pessoal para além do estritamente necessário, de forma a que nunca sentisse a necessidade de apagar nada mais tarde;
    Acontece que dei por mim a querer escrever sobre temáticas que em muito ajudariam a crescer e valorizar aquilo que a blogosfera tem de bom. A partilha, sem ser necessário recorrer a casos particulares. E quando aqui venho, apesar de me orgulhar do conteúdo que partilho, sinto que falta personalidade. E isso eu tenho em excesso, dizem alguns. Se em pessoa falo sem tabus, porque haveria de o fazer na escrita, onde o pensamento me é tão mais claro? Por isso acredito que será mais comum publicações sobre reflexões de experiências de vida, sem travões ou filtros, para além das viagens.
  3. Transmitirei boas energias, através da mudança que procedi em vários aspectos da minha vida;
    Neste tópico é interessante de notar que são várias as publicações em rascunho que falam sobre equilíbrio e auto-estima. E nem sempre é assim. Não consigo transparecer segurança ou motivação se não expressar o outro lado da moeda, a melancolia que também me caracteriza. Guardo reflexões sobre a tristeza, desgostos de quem se desiludiu com pessoas queridas, que viu pura maldade nas suas acções em contraste com o amor no olhar, sobre a morte, a partida, a solidão... Tudo isto é vida, tudo isto é energia! Acredito que irei escrever mais sobre esta minha crença espiritual, de que tudo é devido a um estado de energia que nos rodeia e envolve. Está presente em cada um de nós e em cada lugar, assim acredito.
  4. Não irei expressar opiniões relativas à minha futura profissão ou planos futuros;
    Ora, para os leitores mais atentos, saberão que sou estudante de enfermagem, o que acarreta uma data de histórias interessantes para contar. Nunca o fiz porque considero que haja coisas que se guardam apenas no nosso coração. Contudo, também sei que há formas de o fazer sem ultrapassar o limite do que é para mim o respeito pelo próximo. E foi quando estava há dois dias atrás perante a nova turma de caloiros a coordenar um workshop, com uma diferença de cerca de 9 anos de idade de mim, que se fez o clique. Estava eu a falar de experiências em contexto clínico. O que queriam ouvir eram piadas. Cocós e xixis. Pensos, traumas, emergência. Pouco lhes cativou o entusiasmo com que se fala de amor, da primeira vez que chorei com uma pessoa que cuidei, da primeira vez que ultrapassei a barreira do institucional e me deixei ser eu, a Ju, de farda branca. Eu amo esta escolha que fiz. Fez de mim uma pessoa melhor e mais atenta. Há também diferentes formas de se ser enfermeiro, e eu bem o vejo, no entanto, creio que este blogue possa transmitir a forma como eu perspectivo a enfermagem em tempos em que se fala tão mal da mesma. 💦 Tristemente. Penso que não se saiba, socialmente, o que é ser-se enfermeiro, daí que fica a promessa de partilhar mais este meu mundo que me engole tantas vezes. Não faria sentido não o fazer, visto que poderá ser à custa da enfermagem que tantas outras viagens se realizem. Quem sabe?
  5. O foco serão as viagens e a fotografia;
    Acontece que estes últimos meses senti a necessidade de expressar-me um pouco mais através das minhas escolhas pessoais no que dita a beleza, maquilhagem (eu adoro!), cabelo, dicas culinárias, informações fiáveis na área da saúde, desporto, yoga, e muito mais. O texto sobre o meu carro foi um teste. Foi a publicação que recebeu mais visitas num curto espaço de tempo, pelo que parece que será bem vindo temáticas diferentes.
Mudar faz parte. Há é que deixar a mudança acontecer e fazer parte de nós.
IMG_2210
    Assim sendo, será evidente uma nova fase aqui no blogue. Irei certamente ser menos imparcial. Menos politicamente correta. Menos Mrs. Certinha como os meus amigos me descrevem. Parecer-vos-ei por vezes mais nerd, mais demorada na escrita, mais vaidosa, mais brincalhona, idealista, sonhadora, desmedida, mas mais verdadeira. Se estiver apaixonada, irei demonstrá-lo. Se estiver triste, também.
Por mais que queiramos fazer de conta de que está tudo bem, não há muito a ganhar com isso (...)
Só uma capa que nem nos protege assim tanto, pois nos afasta de outras pessoas com quem nos poderemos identificar!
E sim, tinhas razão, minha cara amiga: não tinha resposta à tua pergunta: "Porque não escreves sobre isso se é algo tão teu?!". Não sabia.

Se quiserem contribuir para esta lufada de ar fresco, poderão enviar as vossas sugestões ou questões para o seguinte email.
✉️ Contacto: juvibesblog@outlook.pt

Partilhem as vossas incertezas e inseguranças, dúvidas ou alegrias, e faremos deste cantinho uma discussão e partilha interessante. Certamente. A comunidade que aqui se criou é incrível e muito aberta ao companheirismo! Queres juntar-te? Vale até um simples Oi!